Por anos, um remédio experimental chamado Secretina ofereceu um pouco de esperança para os pais desesperados de crianças autistas. Descoberta acidentalmente pela mãe de um garoto autista e então licenciada para uma pequena companhia de biotecnologia liderada pelo pai de duas garotas autistas, a secretina continua a avançar em testes clínicos, apesar de estudo após estudo mostrar que ela tem pouco ou nenhum efeito.
Agora, o maior e mais definitivo teste clínico da secretina foi completado, e ele, também, mostra que o remédio não é melhor que um placebo na melhoria das capacidades sociais e no comportamento de crianças com autismo. O fracasso foi anunciado na última segunda-feira pela companhia Repligen, de Waltham, Massachusetts.
“Estamos aterrorizados com a idéia de ter que abandonar isso”, disse Jan Henry de Chattanooga, Tennessee, que disse que o remédio, que algumas vezes era obtido no exterior e custa US$ 10 mil por ano, ajudou seu filho, Andrew, a falar e dormir à noite.
Mas alguns especialistas dizem que pais desesperados vêem o que querem ver, e que o remédio não funciona quando medido mais objetivamente.
“Temos múltiplos estudos mostrando que a secretina não é melhor que um placebo”, disse o dr. Fred R. Volkmar, professor de psiquiatria infantil em Yale. “Eu diria que é hora de mudar de foco”.
Alguns pequenos estudos patrocinados pelo National Institutes of Health (NIH) mostraram que a secretina, um hormônio natural que estimula o pâncreas a liberar sucos que ajudam na digestão, não tem nenhum benefício além daqueles oferecidos por placebos.
A Repligen realizou um grande teste clínico envolvendo três doses, que também não mostraram resultado. Mas elas mostraram algum efeito em crianças mais novas.
Por isso, a companhia iniciou outro estudo, chamado Fase 3, geralmente o último estágio antes da aprovação reguladora, envolvendo 132 crianças de 2 anos e 8 meses a 4 anos e 11 meses.
Os resultados mostraram que as crianças que receberam o remédio não tiveram uma melhoria maior que aquelas que receberam o placebo, quando avaliadas por pais ou psicólogos.
Na última segunda-feira, as ações da Repligen perderam mais de 40% de seu valor, caindo US$ 1,77, para US$ 2,39.
Mas Walter C. Herlihy, presidente da Repligen e pai de duas crianças autistas, e alguns médicos que participaram do teste ainda não estão preparados para desistir totalmente.
Eles disseram que uma razão para o fracasso do teste foi a dificuldade de medir as melhorias nas crianças. O remédio não mostrou efeito para algumas crianças com altos QI´s.
“Eu continuo convencido de que há um grupo de crianças que se beneficia da secretina”, afirmou o dr. Paul Millard Hardy, um neurologista comportamental de Hingham, Massachusetts, que participou do estudo.